terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O SEQUESTRO


-Coxixola, temos um problema!
Essa foi à frase que fez o delegado Pedro Maçaneta suar frio no meio daquele calor danado. No pingo do meio dia. Na sala pequena e não menos quente da casa de Anastácio Pereira Gomes.
Ladeado pelos familiares, todos esperavam por uma resposta positiva de Tôin da Civil, escrivão que fora transferido lá de Itabaiana para a Delegacia de Coxixola, Cariri da Paraíba.
- Adiante.
Respondeu o delegado. Nada de respostas. Só chiado e desconfiança.
- Mãe tem qui tumá o remédio antes da meia noite.
-Tenha carma mulé cabamo de armuçá agorinha. Dá tempo.
Era o genro.
Eis boletim de ocorrência, feito por Toinho antes de ir atrás dos sequestradores:
“O ocorrido foi que dois meliantes de nome inda num sabido, armuçaram no bar de Anastáço e num quisero pagá a refeição, o delegado Pedro Maçaneta, gente boa - o mió delegado do mundo - ameaçô os cabas de ir pro xilindró , depois de levarem um cacete cum veigança de jucá. Os bandido usano seu dereito de bandido rin qui são, se armaro cuma culé de pau e agarraru  Dona Nita , sogra de Anastaço  o ôto foi ligá a mobilete  e dissero qui ia levá a véa cuma garantia.
A fia dela, Craudinha, mulé de Anastaço diche qui Dona Nita  tá bêrano os setenta e  que inda tentô pegá nos quiba do bandido, mas a mão da bichinha era bem fraquinha...sem sustança, o bandido se livrô ligêro e inda disse :  ‘ Se arguem incostá in nós, a véa já era.’ Aí subiram os três na mobilete e tumaram distino iguinorado. Eu acho qui foi pra Serra Branca, pelo rasto do pneu meia vida da mobilete, o de trás. Quano terminá de fazê o boletim  vô atrás dos safado. O delegado diche ele  ia ficá negociano cá família o resgate.”
E agora, no meio da caatinga estava Toinho, o escrivão-agente da civil, ‘altamente’ armado e disposto a resolver a situação. O rastro da mobilete acabava-se onde acaba a estrada de barro, logo que chegou no asfalto  da BR 412...
- Câmbio. Câmbio.
- Na escuta Agente Toinho.
- O rastro cabô.
- E a vítima.
- Escafedeu-se cá mobilete e os caba safado. Nem siná.
O desespero tomou conta de Anastácio.
- Aí meu Deus e nem deixô a senha da aposentadoria.
Claudinha foi falar com o delegado.
- Dôtô vô logo avisano qui Nastaço comeu fava num faz duas zóra intão ele ta bufan mais pôde qui ticaca prenha, é mió ele fica de fora da negociação...
- Dona Cláudia, é melhor botar ele pra fora de casa.
O problema era o sumiço dos bandidos, do corpo de Dona Nita e da Mobilete.
Momentos agoniantes. Coxixola em peso em frente à casa de Anastácio, alguns entrando e saindo, o delegado sonolento, o dono da casa trancado em um quarto bufando e cheirando sozinho, a empregada servindo cafezinho, alguns lá fora buscando sombra outros querendo entrar, dizendo-se parente da vítima. Claudinha a dona da casa, nervosa procurando o cartão da aposentadoria da mãe sequestrada, o filho mais velho com raiva...
- Pense Cuma tõ injuriado! Logo hoje qui Alexandre Pé de Serra vai tocá lá in Caraúbas...
As conversas das mais variadas rolavam na sala da casa de Anastácio. De repente um chiado...
- Chamando base. Chamando Base. Chamando base... Alô base?
Silencio.
- Chamando base. Chamando Base. Chamando base... Alô base?
- Aqui né da base não. É da casa de Nastaço de Getúlia. Quem taí ?
- Alô base. Aumenta o volume...ta dando delei ...
Marcolino Caranguejo (sobrenome herdado de uma cachaça) ficou em dúvida.
- Vôte, quem mulesta é esse ? Delei. Tem Delei aqui não seu caba safado e deixe de ficá passano trote que o delegado ta logo ali cunversano cá mulé de Nastaço, oxe...numa agonia dessa!
- Chama o delegado infeliz aqui é Tôim, quem ta falano aí ?
- Tum num sabe não?
- Seio não , quem é ?
-Oxe, agora é que num digo...
Saiu Marcolino apressado e disse para a empregada:
-Diz ao delegado qui o bicho ta falano.
E apontandou para o rádio amador  saiu em disparada.
O delegado fora avisado. Anastácio saiu do quarto se aproximando da esposa perguntou-lhe:
- Cadê o cartão do Bolsa Famia, vô na farmácia comprá remédio...
- Eita!
Espantou-se Claudinha.
- Ficô no mêi dos peito de mão inrolado no papé da senha...
- Agora lascô tudo...
Enquanto isso, o delegado tentava conversar com Tôin, falava alto...
- Diga a situação Agente Toinho...Câmbio.
- Pode falá mais baixo delegado, o som é bom aqui, to inganchado num pau de pereiro.
- Sim, mas diga a situação...
- Acho qui resorvemo o caso...
Chiado e silencio. Burburinho na sala da casa de Anastácio. Volta o delegado.
- Câmbio, resolvemos como Agente?
- Pres’tenção Dotô...Avistei agorinha no posto Dotôra Vandérlea, delegada cuma o sinhô  qui diche qui tinha avistado dois meliantes e uma véa dano cavalo de pau no mêi de Santa Luzia, os treis bebo quisó uma cachorra...e cum uma mobilete! Num é o nosso caso não?
- Ela viu foi?
- Viu e Dotôra Vandérlea num mente não?  Mulé das Zalagôa só mente pra dá surra in caba rin...Posso vortá ? Já ta iscureceno...
Silencio.
O delegado chama a filha de dona Nita e conta o ocorrido. Cochicham os dois e em seguida o delegado começa a dispensar os curiosos.
- Vão embora que o caso foi resolvido. Dona Nita foi visitar Dona Rubelânia lá in Monteiro, aí pegou uma carona na mobilete dos meninos, está tudo em ordem. Foi um mal entendido...
Foram todos sob protestos.
Quando o silencio se fez de vez, Claudinha chamou Anastácio.
- Mãe vortô a bebê e tava abrino azá lá in Santa Luzia. Vamo rezá pr’éla num tê gastado o Bolsa famia todin e bufe longe d’eu...

Efigênio Moura ( contato @efigeniomoura.com.br)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sabida


·         Extraído do livro CIÇO DE LUZIA, do autor.

Nesse dia Ciço veio almoçar em casa. Tinha que tirar um feixe de capim lá da vazante e como era perto de casa resolveu fazer a refeição em sua cozinha. Era um dia bem pertinho do sábado, dia em que  Dona Judith e  Zé Vando  iam pra feira de Monteiro.
- Será qui Luzia vai?
Não havia motivo exato pra pensar nela, qualquer coisa o movia.
Enquanto usava a foice pra tirar o capim ouviu um barulho, um chiado vindo de dentro do capinzal.
- Quem pode mais qui Deus?
Silencio. O barulho voltou a ser forte e agora, mais próximo.
‘ Eita gota! Valei-me meu Padin Ciço, é um guará! ’
Dizendo e pulando pra trás, os olhos esbugalhados, a mão quase quebrando o cabo da foice, um medo da molesta...
Ficou paralisado. O barulho chegando perto. Ciço suando, Ciço rezando, Ciço querendo correr e as pernas não deixando...
- Apareça Satanás!
Ciço apelou e ouviu em resposta um latido.
- Oxi?
Outro latido.
Surgiu uma cadela prenha de pelo amarelado, de língua de fora e rabo balançando, ela sentou-se e encarou Ciço e latiu duas vezes. Ciço desarmou-se, fez aliviado o sinal da cruz.
- Oxe mulé, tu ta buxuda e no mêi do tempo uma zóra dessa.
Voltou para casa e percebeu que a cadela o acompanhava. Ele parava, ela parava. Caminhava, ela ia atrás.
- Vorte pra sua vidinha mulé, vá tê  seus fiin nôto canto, vá.
A cadela desobedecia e o seguia.
Ciço então a adotou. Passou a lhe dar comida e guarita, virou companhia inseparável, virou amiga confidente...
“uma cachorra cuma tu só pode tê um nome: Sabida.”
Sabida deitava em baixo da rede de Ciço, mas dormia na porta da casa, qualquer movimento em falso, ela alardeava.  A cadela passou a ser noticia em toda Macaxeira:
“- rapaizi, Ciço achô uma cachorra qui só farta cozinhá pr’ êle, pense numa bicha sabida!
- Ela pega inté lambu.
-Agora tá, lambu quaiqué cachorro péga!
- Avuando ?
- É só arremedá  qui ela acoa na hora! Dá um bote e sarta e cai cum bicho na boca, se lascano todinha no chão, adispois sacode a puêra e sórta o lambu já difunto, nas precata de Ciço. ”
Sabida sabia de um monte de coisas de Ciço, sabia que ele tava alegre quando assoviava ‘ Farelim de Nada* ’ na porteira perto da casa dele. Sabia que tava preocupado quando ele andava devagar, sabia que ele tava zangado quando soltava com a força a porteira, sabia que Ciço tava triste quando ele não fazia barulho nenhum. Sabida, sabia o quanto Ciço era doidinho por Luzia.
- Eita Ciço e essa cachorra ?
- É sabida, Luzia, ta prenha...
- Ela é Sabida é? Pru quê ?
- Mais tá! Ela é sabida pruquê nasceu sabida e ela cunhece os bicho do mato tudin e tudin arrespeita ela...
Luzia acariciou a cabeça de Sabida. Sabida balançou o rabo.
Ciço ficou doidinho para ser a cachorra.
(* Farelim de Nada, letra e musica de Xico Bizerra.)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Fanfai

Lindalvo nasceu fanho, se criou fanho e tentou criar seus filhos longe dessa situação.
Desde criança em Taperoá era alvo de gozações e chateações da molecada, o que hoje seria classificado como ‘ bullyng’ lá por trás do antigo prédio da prefeitura era apelido, principalmente quando iam brincar de ‘toca de vassoura’.
- Fanhin fi de quenga! Nem pega nós.
Pense numa pegada de ar!
E as gozações se soltavam pelas calçadas quentes de meu Taperoá, fosse a hora que fosse:
- Ei, duas venta agora é tua veiz...
E a molecada fazia a festa.
Cresceu e se mudou pra Campina e resolveu torcer por um time diferente, a Desportiva Borborema, o Gavião da Serra e foi trabalhar com Valdeir, da Campina Seguros, foi ser vendedor de seguros, a recomendação de Valdeir era para que não se alongasse muito na leitura dos contratos...
- Lindalvo, você somente arruma os clientes e manda pra cá viu?
- Tan certo.
Ser fanhoso era um problema que o fazia se calar nas festas, falar poucos nas informações e observar muito, eis que Lindalvo se apaixona...
- Henlena...minha bênbên...
Helena, moça prendada de Bodocongó gostava muito dele e paciente que era, fazia o possível para mantê-lo por perto, de preferencia em silencio.
Havia dois sonhos para Lindalvo, um era ser pai e o outro nunca alcançou, que era ver sua Desportiva campeã estadual, depois de golear o Treze do seu patrão...
- Vingi ênle mim inchaica dimais, tonda veinz que o ganlo dele ganha de nós...
Como torcedor, era esperança dele ver o time como maior força de Campina. A Desportiva fora formado por dissidentes do Campinense e era natural que a raposa fosse seu principal adversário...
- Ganhamo de quantro a premeira partida, Binspo jongou demais. Nôto dia o Campinense disse que ia anular o jogo, pruquê Bispo jogou sem ordem do Papa...
E dava gargalhadas fanhosas ao lembrar-se da goleada, acompanhado de Valdeir, trezeano de nascença.
Lindalvo casou-se e o sonho de ter um filho se concretizou.
Como todo pai, deu a Lindalvo Segundo uma camisa da Desportiva que mandou Gracinha do Catolé fazer, e aos 2 anos Segundinho não dizia uma palavra, mas se percebia que o moleque prestava bastante atenção quando o pai falava e num domingo, dia dos pais, Lindalvo resolveu quebrar o gelo:
- Venha cán, Sengundin...
O moleque foi.
- Difa Fanfai.
Nada. O pai insistiu.
- Diga Fanfai.
Já alterando a voz
O moleque espiando atônito respondeu:
- Fanfai.
- Fanfai não, danado. Fanfai!
Segundo respondia:
- Fanfai.
Percebendo que a situação iria descambar pra violência, Helena socorreu o filho, aproximou-se dele e disse:
- Segundo diga Papai!
- Papai.
Lindalvo pai se orgulhou e alisando a cabeça do filho disse...
- Simmmm, Fanfai.

domingo, 31 de julho de 2011

Contato Imediato


Chico Marciano era rapazote no sitio Mendonça, zona rural de Juazeirinho. A propriedade de seus pais margeava a BR 230.

Próximo à estrada havia um barreiro, e em tempos de Julho enchia e transbordava com facilidade, era a reserva d’agua que tinha quando o sol se zangava com os caririzeiros. Estudante era fascinado por assuntos ufológicos.

- Priscila mermo, minha namorada num acredita qui inzista disco avoadô.

E Priscila nem acreditava e nem aguentava mais ouvir Chico falar em seres extraterrestres, em tropas estrelares, em naves espaciais, Nasa e em objetos voadores não identificados:

- Óvi... O quê Chiquin?

- Ovíni.

- Homi se inteire das lavôra de feijão qui as ramas tao tudin se ispaiano, ói Chico, arriba da cabeça do homi, só Deus!

Era raro não ter uma confusão toda vez que ele ia a sua casa, duas léguas e meia de onde morava.

- Apôi Priscila, quaiqué dia eu dismonto tua discrença! Tu vai vê.
E todo dia, por volta das 9 da noite, no silencio do roçado, ele saia de sua casa e ia até um morro próximo e ficava algum tempo, sentado de olhar perdido no céu negro e vez e quando, jogava o olhar para o horizonte... Nada.

Então, quase chegando a Agosto, já à noitinha, uma névoa cobriu Juazeirinho e um pedaço da Barra, mesmo fazendo um frio da gota, Chico saiu em horário costumeiro e foi até o morro. A névoa era muito forte, quase não se enxergava além do nariz, foi quando ele viu, ao longe, muito longe, luzes amarelas e vermelhas piscando...

- Vixe Maria!

Arrepiou-se. Queria uma testemunha que não fossem seus olhos. Não tinha. Os vagalumes não certificariam a visita que estava recebendo.

- Eita gota! São os caba! Eles viéru mermo. É um disco avuadô!

E fazia o sinal da cruz, e tentava parar a tremedeira.

- Vô lá. E eles tão bem pertin do barrêro...Deve de tá cum sede ou butano agua no radiadô...

Caminhou alguns passos e as luzes piscando, a visão ainda prejudicada pela névoa, de repente se joga no chão e sai rastejando pelo meio da caatinga molhada de orvalho, e mil pensamentos povoam sua cabeça, e ria porque ia contar pra Priscila que tinha recebido a visita de habitantes de outros planetas, mas como ele ia fazer as honras ?

- Peraí, num to levano nada, nem uma camisa do Guarani de Juazeirin pra dá a de agrado ?
E ia rastejando até que parou perto de uma moita, as luzes amarelas e vermelhas eram mais visíveis... Resolveu se apresentar, ficou de joelhos e botando as duas mãos em forma de cone, gritou:

- Aqui, Chico Avuadô, de Juazeirin, fazeno contato!

Nada.

Esperou mais alguns segundos e falou mais forte, agora já esticando o pescoço:

- Aqui Chico Avuadô, de Juazeirin, amigo de Fernando do cinema, votei em  Zé Neto Rangel pra vereadô, fazeno contato!

Só o eco de sua voz era escutado. Ficou em pé e falou mais alto.

- Aqui Franisco Avuadô, de Juazeirin, Paraiba,Brasí,  criadô de mocó e amigo dos impussive e de Zé Martins, fazeno contato...

A última palavra em forma de grito...

De repente ele escuta lá das bandas do barreiro o retorno...

- Aqui, Antôin Jirimia, motorista da Itapemirin... Homi deix’eu obrá in paz...

Foi o fim do contato imediato que Chico tentou fazer.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cai Cai Balão


São João de Campina Grande. Antes de começar o show de Flávio José, aproveitando a folga, dois garis dançavam no pátio vazio do Parque do Povo. O som amplificava os sucessos de Flávio e os dois amigos, já calibrados, trocavam passos, ora engraçados, ora acertados. Era um malabarismo só e somente suas alegrias conseguiam decifrar o momento. São João. Padroeiro dos dois.
- Nasci no dia 24 de Junho, purisso mãe butô João Batista, o Batistinha.
Apresentava-se o mais baixo.
- Nasci no dia vizin, do lado cá, no dia 23, quaje partino pr’outro dia, João de Sousa, conhecido pru Juãzin Piaçava.
Eram muitos amigos apesar dos bairros diferentes. Batistinha do São José, Piaçava do Zé Pinheiro.
Naturalmente um era Treze, e o outro, Campinense, mas o São João os unia, e dançavam juntos e provocavam as dançarinas das quadrilhas em arrumação, e ouviam desaforos e não ligavam pra nada. Faziam piruetas e cantavam erradas as cantigas imortalizadas na voz do Caboclo Sonhador, nas letras de Maciel Melo e Flávio Leandro.
- Pia Batistin, tao sujano o chão de propósio. Ô povo rin!
- Vamo dançá in riba pra ispaiá o lixo.
Abriam os braços, cantavam alto e desafinado, até serem percebidos por uma equipe de Televisão que tinha vindo do Sul do país para cobrir o evento.
Os dois dançando, o cinegrafista tentando enquadra-los, o cabo-man arrumando uma posição, o repórter buscando no quengo o texto, de repente, os dois param.
Batistinha e Piaçava perceberam que estavam sendo observados.
Todos param.
O cinegrafista achou o quadro, o cabo-man ficou quieto, o repórter se colocado dentro do quadro se aproximando de costas para os dois...
Os amigos se entreolham e surpresos e assustados, perguntam quase numa voz só:
- O qui nós fizemo?
Nada.
- Vamos conversar agora com um casal de gays maravilhados com a festa tradicional de Campina Grande, a alegria deles contagia a multidão, vamos saber qual motivo de tanta alegriaaaaaaa...
O repórter estava efusivo.
Ainda atônitos, os Joões  quase que não entenderam nada.
- Quem bixiga é gay Piaçava?
- Shiiiiiii.
O repórter perguntou:
- Com licença, qual motivo de tanta alegria amigos?
Batistinha respondeu:
- Ah, nós espera o ano todim pelo São João, a mió festa do ano, é 30 dia torano dento...
E riram.
- Campina Grande é famosa pela sua festa, sua gente hospitaleira e pelo futebol não é? Vocês gostam de futebol?
- Oxe, nós só véve no Amigão. Eu sou do Zépa e quem é do Zépa tem de sê da Raposa. Do Campinense.
- Já eu, meu nome é Batistinha, muito prazê. Sou do Galo, do Treze, o Bi Campeão do estado...
Isso já foi motivo para se afastarem um pouco. Percebendo que a pergunta causaria confusão, o repórter mudou o assunto...
- Qual melhor dia da festa daqui?
Batistinha pulou na frente.
- Treze. Dia 13. Dia de Santo Antônio. E num interessa quem vai tocá.
Piaçava já se afastado...
- Sabia Seu Zé, qui quem nasce in Campina é Campinense pra toda vida?
Batistinha se intrometeu:
- Sabia qui todo mundo um dia tem 13 ano. Intendeu ? Trezi-ano?
- E quié númuro de Azar ?
- Sabia qui a maior tucida é do galo ?
Pronto.
O cinegrafista já se balançava buscando um ou outro de tão afastado que estavam. O repórter agoniou-se. Mudou o assunto drasticamente...
- Fora Santo Antônio, São Pedro e São Joao, qual outro grande santo daqui?
Batistinha na frente:
- São José. Meu bairro.
Piaçava respondeu.
- Santa Cruz, de Ricife.
- Oxe e Santa Cruz de Ricífe é lugá de Campina ? Indoidô foi vassôra afulozada ?
- Ta lembrado não frango goguento do cai cai la in Ricife, correro cum medo de apanhá, Batestinha  ? E era um amistoso visse ?
O repórter já, sem querer estava no meio dos dois, doido pra fugir da situação...
- E é infelí? E tu lembra dos quáto qui metemo no rabo de voceis, preá freguês da gota serena ?
Os ânimos exaltados, eis que de repente, no som do Parque do Povo, toca-se a cantiga CAI CAI BALÂO *. Piaçava começa rir e o cacete começa. O primeiro bufete foi no repórter que nunca mais quis saber de Treze ou Campinense.


·       Depois do episódio do jogo de volta contra o Botafogo, toda vez que o Treze enfrentou o Campinense era saudado pela Torcida Raposeira com essa musica, uma referencia ao cai cai do clube contra o Santa Cruz em um amistoso e contra o Botafogo, pelo Paraibano desse ano.

Efigênio Moura ( contato@efigeniomoura.com.br)

sábado, 25 de junho de 2011

Lei do Sigilo Eterno


No centro de Cabaceiras uma ligação telefônica chamava a atenção de quem passava perto da Prefeitura. Era Samanta, filho de Biu Sapatin, funcionário aposentado de Zé Pombo.
- Tu num pode me tratá desse jeito não Liandrin !
Silencio.
- Alô! Alô! Alô!
Parecia que a voz do outro lado do telefone tinha dificuldades em sair, ou se formar em frase grande, mas...
- Liandrin, tu isquecêu du qu’êu fiz pra tu foi ? Tu é muito malagradécido...
E Samanta meneava a cabeça sucessiva vezes e dava pra ver mesmo ao longe, um brilho molhado no meio dos olhos dela, o monólogo já estava sendo acompanhado por alguns curiosos, mesmo a distancia...
- Reléve Liadrin. Alô ? Sim, cuma ia dizeno, tu acha qui eu ia adivinhá uma coisa daquela ? Iscuita! Shiiiiiiii, caláboca qui quem tava falano era eu...
Samantha tenta escrever com os pés numa lousa imaginaria solta na calçada, parecia atenta ao que o interlocutor dizia...
- Não Sinhô! Dei não sinhô. É mintira daquele caba safado. É ment...
Parecia ser uma bronca. Um ajuste de contas. Parecia pelo que o vento contava que Leandrinho queria se livrar de alguma coisa...
- Num pense quié fáci não viu Leandrin ? Cabaçeira todinha vai sabê quem é tu...o quê? Tu mandô eu calá mi’a boca de novo ?

Agora a plateia já via Samantha ciscando, apagando com os dois pés o que tinha tentando escrever naquela lousa imaginária, a mão esquerda segurando o telefone vermelho, a mão direita livre e apalpando o objeto...
- Mim iscute Leandrin... Num  tenho medo não ! Tu num sabe qui ô sô arrochada ?Quem ? Rapa o quê ? Tu me chamô daquele nome foi? .Han ... Ahhhh! Tu num qué intriga... Ô também não... Deixô falá homi de Deus...
A agonia de Samantha era o diferencial daquela tarde tão igual, de meio de semana, de meio de nada, de tão quente que se fazia em Cabaceiras. Já rodava um rapazinho vendendo rolete de cana, enquanto isso,  o filho de Biu Sapatin, debulhava suas razões para manter em situação igualdade, a conversa com Leandrinho...
- Mim respeite Leandrin!! Na hora do... ( disse em voz baixinha)
Todo mundo que escutava virou o ouvido e se entreolharam para saber o que havia sido dito...
- Arguem Ouviu?
- Acho qui falô de Palocci.
Volta pra Samantha.
-... Tu gostô né ?  ô meu amado...Se você num mandá o prometido, Liadrin, ô conto viu ? Eu ispaio tudo e aí quero vê se tu é homi ? Han ?
Alô ? Alô?  Tomo côidado cumquê ? Cumquê? Qui bixiga de Lei do Sigilo Eterno é essa? Eu quero sabe dessa mulésta...Quero sabe se tu esqueceu das coisa embaixo da ponte...Liandrin ?
Quem era Leandrinho ?
- Os povo vão sabê quem é tu e ai  quero vê tu andá no jipe de Evandro da Cagepa, todo posudo...han ? Tu num feiz nada o quê, caba safado... E aquele fugado todo? Agora eu provo, se meta a besta pra vê se num provo.....
Era Samantha raivosa. Nervosa e decidida...
- A ficha vai cair. Vô ligar mais não. Vô amanhã nos côrrei vê se a incumenda  chegô, se num  chegá, nem pise aqui na Festa do Bode Rei viu ? Alô, Alô ?  Caiu.
Recolocou o fone no gancho. Colocou na boca a liga que amarrava o cabelo, com as duas mãos fez o coque, suspirou forte, olhou para quem a olhava antes e rebolando seguiu rumo ao Palhoção no centro da cidade. No outro lado da calçada, Dudu, o vendedor de rolete de cana comentou entre os dentes...
- Viado aprumado da gota!!! Lascôsse Leandrin!




domingo, 19 de junho de 2011

Coisa Chata


Adailton Silva Lampiano.
Ele saiu desde o ano passado de Pernambuquinho, quando descobriu que viver tapando buraco de estrada com barro não iria dar a ele a condição de comprar para Augusto Jefferson, seu filho único, a monareta prometida.
- Vô pra cidade grande.
De imediato aprumou o rumo da venta pra Sertânia.
- Vô fica na casa de Junho Cavalcanti, da rádia de Monteiro.
Micaela Brígida, esposa e sobrevivente achou a ideia desinteressante.
- Se é pra fica longe d’eu, vá pra már longe?
No juízo de Adailton, o que seria mais longe? Arcoverde? Monteiro?  Caruaru? São José de Espinharas?
- Buíque.
- Homi vá logo pra Récife, lá tem Rajadin quié primo teu e arruma trabaio, adispois ô vô cum Argusto Jefferson.
Chegou a Recife com a musica de Petrúcio Amorim no quengo, a voz de Cristina Amaral zunindo de orelha a orelha, por dentro...
‘ Cidade grande moça bela...”
Logo amparado por Rajadim, fora auxilia-lo em seu trabalho.
- Ó  Dailtu, tu siliga quitué meu gerente nas esquinas.
Era gerente do sinal da Rua José Bonifácio, ali, na Torre, quase em frente a uma concessionaria de carro estrangeiro.
Com o kit limpeza: Garrafa pet de 500 ml, contendo agua do Beberibe e um pedaço de sabão em barra, dissolvido, um rodo pequeno, bailava Adailton pelo asfalto gasto das ruas de Recife, na hora da pausa, entre um abrir e fechar de sinal surge uma conversa mais intima.
- Dailtu tu onti tava cum nêga Xuxa néra ?
- Oxe eu não? Quem diche ?
- Minta não. Ô vi.
- Tava so cunversano.
- No iscurim, fazeno baruio de gata no cio ?Homi to cumeno cunversa não...
O Sinal fecha.
- Vai uma limpadinha aí patrão.
Vidros fechados, Os dedos em negativas. O para brisa já melado. O motorista fazendo cara de desgosto e cedendo. Abre o vidro, despeja algumas moedas e tenta dizer algo que não se arrependa depois...
O Sinal abre.
- Vorte pra conversa Dailtu.
- Vamo conta o apurado logo.
-  Nan. Tu xamegasse cum Nêga Xuxa ?
- Foi só um tiquin !!!
- Homiiiiiiiiii! Pelo amô di Deussssss...aquela mulé é fulêra dimais, primo.
- Oxe, achei não, achei muito arrochadinha...
- Tu viu a ruma de cabelo qui a mulé tem nas parte?
- Vi não, tava no escuro.
- Apôi, pia a tuia!!!
- Vixiiiiiii purisso era tão fofim ?
- Meu amigo, varei... Já peguei umas duas ou três veiz. Todo mundo pegava...
- Pegava ela era?
- Ela o caba so pega uma veiz. So uma...óia o siná...vai uma limpadinha aí :
Volta o cenário anterior: motorista subindo o vidro, negando, alguns sem ar condicionado, tentando protelar...O sinal abriu.
- Qui istora é essa Rajadin ?
- É uma conversa de muito chato.
- Ixprique dereitin! Lá in Pernambuquin tem disso não.
- Tu num ta sintino uma cocêra perto do negoço não ?
- Tô, nos quiba!
- òia o siná...
Agora o sinal foi bom. Três lavadas urgentes de para-brisa. Quase 1,50 de lucro e uma coceira nas partes...
- Rajadin, e todo homi num coça o saco não ?
- Coça, mas essa coçada é cuma se fosse uma pinicada... Tu já teve piôi ?
- Tive lêndia, inda hoje Argusto Jeferson cria uma pareia qui  passei pra ele...
- Nêga Xuxa tem chato quisó a bobônica...
- Chato ?
- Piôi das partes.
- Eita gota!!! E pega ?
- Mastá! Pega qui se cria no premeiro incronto..É a besta fera de ligêro.
Adailton começou a coçar as parte e imediatamente chegou à imagem de Micaela Brígida.
- Chegá in casa vou daná Detefon...
- Mata não.
- Eita gota! E tu butou o quê ?
- Oxe, tava lavano o banheiro lá no meicado da Madalena, e vi um lito de criolina dano sopa,  rôbei o danado e matei tudin...
- danou-se Rajadin, criolina ?
- Num ficou um .
- Oxe e a criolina num fez  má a tu não ?
- Tu acha qui os povo me chama de Rajadin pru mode ? Oiá o siná...

Efigenio Moura (contato@efigeniomoura.com.br)