domingo, 31 de julho de 2011

Contato Imediato


Chico Marciano era rapazote no sitio Mendonça, zona rural de Juazeirinho. A propriedade de seus pais margeava a BR 230.

Próximo à estrada havia um barreiro, e em tempos de Julho enchia e transbordava com facilidade, era a reserva d’agua que tinha quando o sol se zangava com os caririzeiros. Estudante era fascinado por assuntos ufológicos.

- Priscila mermo, minha namorada num acredita qui inzista disco avoadô.

E Priscila nem acreditava e nem aguentava mais ouvir Chico falar em seres extraterrestres, em tropas estrelares, em naves espaciais, Nasa e em objetos voadores não identificados:

- Óvi... O quê Chiquin?

- Ovíni.

- Homi se inteire das lavôra de feijão qui as ramas tao tudin se ispaiano, ói Chico, arriba da cabeça do homi, só Deus!

Era raro não ter uma confusão toda vez que ele ia a sua casa, duas léguas e meia de onde morava.

- Apôi Priscila, quaiqué dia eu dismonto tua discrença! Tu vai vê.
E todo dia, por volta das 9 da noite, no silencio do roçado, ele saia de sua casa e ia até um morro próximo e ficava algum tempo, sentado de olhar perdido no céu negro e vez e quando, jogava o olhar para o horizonte... Nada.

Então, quase chegando a Agosto, já à noitinha, uma névoa cobriu Juazeirinho e um pedaço da Barra, mesmo fazendo um frio da gota, Chico saiu em horário costumeiro e foi até o morro. A névoa era muito forte, quase não se enxergava além do nariz, foi quando ele viu, ao longe, muito longe, luzes amarelas e vermelhas piscando...

- Vixe Maria!

Arrepiou-se. Queria uma testemunha que não fossem seus olhos. Não tinha. Os vagalumes não certificariam a visita que estava recebendo.

- Eita gota! São os caba! Eles viéru mermo. É um disco avuadô!

E fazia o sinal da cruz, e tentava parar a tremedeira.

- Vô lá. E eles tão bem pertin do barrêro...Deve de tá cum sede ou butano agua no radiadô...

Caminhou alguns passos e as luzes piscando, a visão ainda prejudicada pela névoa, de repente se joga no chão e sai rastejando pelo meio da caatinga molhada de orvalho, e mil pensamentos povoam sua cabeça, e ria porque ia contar pra Priscila que tinha recebido a visita de habitantes de outros planetas, mas como ele ia fazer as honras ?

- Peraí, num to levano nada, nem uma camisa do Guarani de Juazeirin pra dá a de agrado ?
E ia rastejando até que parou perto de uma moita, as luzes amarelas e vermelhas eram mais visíveis... Resolveu se apresentar, ficou de joelhos e botando as duas mãos em forma de cone, gritou:

- Aqui, Chico Avuadô, de Juazeirin, fazeno contato!

Nada.

Esperou mais alguns segundos e falou mais forte, agora já esticando o pescoço:

- Aqui Chico Avuadô, de Juazeirin, amigo de Fernando do cinema, votei em  Zé Neto Rangel pra vereadô, fazeno contato!

Só o eco de sua voz era escutado. Ficou em pé e falou mais alto.

- Aqui Franisco Avuadô, de Juazeirin, Paraiba,Brasí,  criadô de mocó e amigo dos impussive e de Zé Martins, fazeno contato...

A última palavra em forma de grito...

De repente ele escuta lá das bandas do barreiro o retorno...

- Aqui, Antôin Jirimia, motorista da Itapemirin... Homi deix’eu obrá in paz...

Foi o fim do contato imediato que Chico tentou fazer.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cai Cai Balão


São João de Campina Grande. Antes de começar o show de Flávio José, aproveitando a folga, dois garis dançavam no pátio vazio do Parque do Povo. O som amplificava os sucessos de Flávio e os dois amigos, já calibrados, trocavam passos, ora engraçados, ora acertados. Era um malabarismo só e somente suas alegrias conseguiam decifrar o momento. São João. Padroeiro dos dois.
- Nasci no dia 24 de Junho, purisso mãe butô João Batista, o Batistinha.
Apresentava-se o mais baixo.
- Nasci no dia vizin, do lado cá, no dia 23, quaje partino pr’outro dia, João de Sousa, conhecido pru Juãzin Piaçava.
Eram muitos amigos apesar dos bairros diferentes. Batistinha do São José, Piaçava do Zé Pinheiro.
Naturalmente um era Treze, e o outro, Campinense, mas o São João os unia, e dançavam juntos e provocavam as dançarinas das quadrilhas em arrumação, e ouviam desaforos e não ligavam pra nada. Faziam piruetas e cantavam erradas as cantigas imortalizadas na voz do Caboclo Sonhador, nas letras de Maciel Melo e Flávio Leandro.
- Pia Batistin, tao sujano o chão de propósio. Ô povo rin!
- Vamo dançá in riba pra ispaiá o lixo.
Abriam os braços, cantavam alto e desafinado, até serem percebidos por uma equipe de Televisão que tinha vindo do Sul do país para cobrir o evento.
Os dois dançando, o cinegrafista tentando enquadra-los, o cabo-man arrumando uma posição, o repórter buscando no quengo o texto, de repente, os dois param.
Batistinha e Piaçava perceberam que estavam sendo observados.
Todos param.
O cinegrafista achou o quadro, o cabo-man ficou quieto, o repórter se colocado dentro do quadro se aproximando de costas para os dois...
Os amigos se entreolham e surpresos e assustados, perguntam quase numa voz só:
- O qui nós fizemo?
Nada.
- Vamos conversar agora com um casal de gays maravilhados com a festa tradicional de Campina Grande, a alegria deles contagia a multidão, vamos saber qual motivo de tanta alegriaaaaaaa...
O repórter estava efusivo.
Ainda atônitos, os Joões  quase que não entenderam nada.
- Quem bixiga é gay Piaçava?
- Shiiiiiii.
O repórter perguntou:
- Com licença, qual motivo de tanta alegria amigos?
Batistinha respondeu:
- Ah, nós espera o ano todim pelo São João, a mió festa do ano, é 30 dia torano dento...
E riram.
- Campina Grande é famosa pela sua festa, sua gente hospitaleira e pelo futebol não é? Vocês gostam de futebol?
- Oxe, nós só véve no Amigão. Eu sou do Zépa e quem é do Zépa tem de sê da Raposa. Do Campinense.
- Já eu, meu nome é Batistinha, muito prazê. Sou do Galo, do Treze, o Bi Campeão do estado...
Isso já foi motivo para se afastarem um pouco. Percebendo que a pergunta causaria confusão, o repórter mudou o assunto...
- Qual melhor dia da festa daqui?
Batistinha pulou na frente.
- Treze. Dia 13. Dia de Santo Antônio. E num interessa quem vai tocá.
Piaçava já se afastado...
- Sabia Seu Zé, qui quem nasce in Campina é Campinense pra toda vida?
Batistinha se intrometeu:
- Sabia qui todo mundo um dia tem 13 ano. Intendeu ? Trezi-ano?
- E quié númuro de Azar ?
- Sabia qui a maior tucida é do galo ?
Pronto.
O cinegrafista já se balançava buscando um ou outro de tão afastado que estavam. O repórter agoniou-se. Mudou o assunto drasticamente...
- Fora Santo Antônio, São Pedro e São Joao, qual outro grande santo daqui?
Batistinha na frente:
- São José. Meu bairro.
Piaçava respondeu.
- Santa Cruz, de Ricife.
- Oxe e Santa Cruz de Ricífe é lugá de Campina ? Indoidô foi vassôra afulozada ?
- Ta lembrado não frango goguento do cai cai la in Ricife, correro cum medo de apanhá, Batestinha  ? E era um amistoso visse ?
O repórter já, sem querer estava no meio dos dois, doido pra fugir da situação...
- E é infelí? E tu lembra dos quáto qui metemo no rabo de voceis, preá freguês da gota serena ?
Os ânimos exaltados, eis que de repente, no som do Parque do Povo, toca-se a cantiga CAI CAI BALÂO *. Piaçava começa rir e o cacete começa. O primeiro bufete foi no repórter que nunca mais quis saber de Treze ou Campinense.


·       Depois do episódio do jogo de volta contra o Botafogo, toda vez que o Treze enfrentou o Campinense era saudado pela Torcida Raposeira com essa musica, uma referencia ao cai cai do clube contra o Santa Cruz em um amistoso e contra o Botafogo, pelo Paraibano desse ano.

Efigênio Moura ( contato@efigeniomoura.com.br)