-Coxixola, temos um problema!
Essa foi à frase que fez o delegado Pedro Maçaneta suar frio no meio daquele calor danado. No pingo do meio dia. Na sala pequena e não menos quente da casa de Anastácio Pereira Gomes.
Ladeado pelos familiares, todos esperavam por uma resposta positiva de Tôin da Civil, escrivão que fora transferido lá de Itabaiana para a Delegacia de Coxixola, Cariri da Paraíba.
- Adiante.
Respondeu o delegado. Nada de respostas. Só chiado e desconfiança.
- Mãe tem qui tumá o remédio antes da meia noite.
-Tenha carma mulé cabamo de armuçá agorinha. Dá tempo.
Era o genro.
Eis boletim de ocorrência, feito por Toinho antes de ir atrás dos sequestradores:
“O ocorrido foi que dois meliantes de nome inda num sabido, armuçaram no bar de Anastáço e num quisero pagá a refeição, o delegado Pedro Maçaneta, gente boa - o mió delegado do mundo - ameaçô os cabas de ir pro xilindró , depois de levarem um cacete cum veigança de jucá. Os bandido usano seu dereito de bandido rin qui são, se armaro cuma culé de pau e agarraru Dona Nita , sogra de Anastaço o ôto foi ligá a mobilete e dissero qui ia levá a véa cuma garantia.
A fia dela, Craudinha, mulé de Anastaço diche qui Dona Nita tá bêrano os setenta e que inda tentô pegá nos quiba do bandido, mas a mão da bichinha era bem fraquinha...sem sustança, o bandido se livrô ligêro e inda disse : ‘ Se arguem incostá in nós, a véa já era.’ Aí subiram os três na mobilete e tumaram distino iguinorado. Eu acho qui foi pra Serra Branca, pelo rasto do pneu meia vida da mobilete, o de trás. Quano terminá de fazê o boletim vô atrás dos safado. O delegado diche ele ia ficá negociano cá família o resgate.”
E agora, no meio da caatinga estava Toinho, o escrivão-agente da civil, ‘altamente’ armado e disposto a resolver a situação. O rastro da mobilete acabava-se onde acaba a estrada de barro, logo que chegou no asfalto da BR 412...
- Câmbio. Câmbio.
- Na escuta Agente Toinho.
- O rastro cabô.
- E a vítima.
- Escafedeu-se cá mobilete e os caba safado. Nem siná.
O desespero tomou conta de Anastácio.
- Aí meu Deus e nem deixô a senha da aposentadoria.
Claudinha foi falar com o delegado.
- Dôtô vô logo avisano qui Nastaço comeu fava num faz duas zóra intão ele ta bufan mais pôde qui ticaca prenha, é mió ele fica de fora da negociação...
- Dona Cláudia, é melhor botar ele pra fora de casa.
O problema era o sumiço dos bandidos, do corpo de Dona Nita e da Mobilete.
Momentos agoniantes. Coxixola em peso em frente à casa de Anastácio, alguns entrando e saindo, o delegado sonolento, o dono da casa trancado em um quarto bufando e cheirando sozinho, a empregada servindo cafezinho, alguns lá fora buscando sombra outros querendo entrar, dizendo-se parente da vítima. Claudinha a dona da casa, nervosa procurando o cartão da aposentadoria da mãe sequestrada, o filho mais velho com raiva...
- Pense Cuma tõ injuriado! Logo hoje qui Alexandre Pé de Serra vai tocá lá in Caraúbas...
As conversas das mais variadas rolavam na sala da casa de Anastácio. De repente um chiado...
- Chamando base. Chamando Base. Chamando base... Alô base?
Silencio.
- Chamando base. Chamando Base. Chamando base... Alô base?
- Aqui né da base não. É da casa de Nastaço de Getúlia. Quem taí ?
- Alô base. Aumenta o volume...ta dando delei ...
Marcolino Caranguejo (sobrenome herdado de uma cachaça) ficou em dúvida.
- Vôte, quem mulesta é esse ? Delei. Tem Delei aqui não seu caba safado e deixe de ficá passano trote que o delegado ta logo ali cunversano cá mulé de Nastaço, oxe...numa agonia dessa!
- Chama o delegado infeliz aqui é Tôim, quem ta falano aí ?
- Tum num sabe não?
- Seio não , quem é ?
-Oxe, agora é que num digo...
Saiu Marcolino apressado e disse para a empregada:
-Diz ao delegado qui o bicho ta falano.
E apontandou para o rádio amador saiu em disparada.
O delegado fora avisado. Anastácio saiu do quarto se aproximando da esposa perguntou-lhe:
- Cadê o cartão do Bolsa Famia, vô na farmácia comprá remédio...
- Eita!
Espantou-se Claudinha.
- Ficô no mêi dos peito de mão inrolado no papé da senha...
- Agora lascô tudo...
Enquanto isso, o delegado tentava conversar com Tôin, falava alto...
- Diga a situação Agente Toinho...Câmbio.
- Pode falá mais baixo delegado, o som é bom aqui, to inganchado num pau de pereiro.
- Sim, mas diga a situação...
- Acho qui resorvemo o caso...
Chiado e silencio. Burburinho na sala da casa de Anastácio. Volta o delegado.
- Câmbio, resolvemos como Agente?
- Pres’tenção Dotô...Avistei agorinha no posto Dotôra Vandérlea, delegada cuma o sinhô qui diche qui tinha avistado dois meliantes e uma véa dano cavalo de pau no mêi de Santa Luzia, os treis bebo quisó uma cachorra...e cum uma mobilete! Num é o nosso caso não?
- Ela viu foi?
- Viu e Dotôra Vandérlea num mente não? Mulé das Zalagôa só mente pra dá surra in caba rin...Posso vortá ? Já ta iscureceno...
Silencio.
O delegado chama a filha de dona Nita e conta o ocorrido. Cochicham os dois e em seguida o delegado começa a dispensar os curiosos.
- Vão embora que o caso foi resolvido. Dona Nita foi visitar Dona Rubelânia lá in Monteiro, aí pegou uma carona na mobilete dos meninos, está tudo em ordem. Foi um mal entendido...
Foram todos sob protestos.
Quando o silencio se fez de vez, Claudinha chamou Anastácio.
- Mãe vortô a bebê e tava abrino azá lá in Santa Luzia. Vamo rezá pr’éla num tê gastado o Bolsa famia todin e bufe longe d’eu...
Efigênio Moura ( contato @efigeniomoura.com.br)